23.6.15

Quem é Quem? (pausa para publicidade)

Quando o Jacinto me explicou que o Quem, o Joaquem, era um pinguim, só consegui dizer A sério??  É que nada pior, pensei eu, para desenhar uma personagem, do que ter mil outras da mesma família como fabulosos antepassados. Se não vejam:
Joelle Jolivet

Juta Bauer

Oliver Jeffers

Polly Dunbar

Taro Gomi

Carmen Segovia

Mas pronto, Quem é um pinguim, Quem é um miúdo, quem é Quem?
Um miúdo diferente, que pensa, que sonha, que se interroga, que quer ser mais, que quer muito.

As histórias são duas, agora, com outras a vir de seguida. Sobre as pequenas grandes coisas da vida, a alegria, a paciência, a coragem.
 
Quem é Quem, a interrogação está logo no nome e fica lá durante a história sem que haja um fim para essa interrogação. Quem? Eu? Tu? Nós?
No mundo de Quem todos são mais ou menos humanos, embora reste lá alguma coisa da essência dum pinguim, nas poses, nos narizes, no guarda-roupa.
 
Só ao Miúdo Esquisito, esquisito porque diferente, resta qualquer coisa efetivamente animal, como Quem. Irá crescer?
É meio estranho falar assim do que fiz. A arquitetura nas páginas é óbvia, acho, embora não tenha sido muito pensada.
Gostei de tratar do Quem com tempo e pormenor, a grafite, e de inventar o resto do mundo, a caneta, com ritmo e cor.
Gosto de saber que vêm aí mais, que a história continua mesmo.
Falar do que se fez é muito difícil. Como diz Hitchcock, querendo saber mais, entrevistem o livro.

Aqui está este Quem no mundo, para quem o quiser apanhar.
.................................................................................
Quem conhece a alegria
Paulinas, 2015
Jacinto Lucas Pires texto, Sara Amado ilustração
isbn 9789896734626








Quem espera
Paulinas, 2015
Jacinto Lucas Pires texto, Sara Amado ilustração
isbn 9789896734633






9.6.15

uma lista para a feira

Para a família
[Amores de família — Caminho] 
 
 
Para os que desenham o mundo
[Mãos à obra — Orfeu Mini]

Para os que precisam de um lápis como de pão para a boca
[O dia em que os lápis desistiram — Orfeu Mini] 

Para os que estão fartos dos TPC 
[Não fiz os trabalhos de casa porque — Orfeu Mini] 

Para os que descobriram finalmente o seu caminho
[Herberto — Bruaá] 

Para os que gostam de jogos
[E tu, vês o que eu vejo? — Bruaá]


Para os que regressam
[O regresso — Bruaá] 
Para os que vão adolescendo
[Finalmente o verão — Planeta Tangerina] 
 
Para os que sabem que se pode mudar o mundo
[Com três novelos — Planeta Tangerina] 

Para os que querem subir sempre mais
[Montanhas — Planeta Tangerina]  
 
Para os que só gostam de livros digitais
[Livro clap — Planeta Tangerina]    






 

Para os que querem muito 
[Querer muito — APCC]

Para os que se destacam
[O chapeleiro e o vento — APCC] 
Para os sempre-meninos
[Pinóquio — Kalandraka] 
 

Para os que são de poucas palavras
[Verdade?! e Dança — Patológico]

Para os que procuram a felicidade
[O que é a felicidade? — Dinalivro]
Para os que esperam uma resposta  
[Deus é uma Pergunta — Paulinas] 
 

29.5.15

Um futuro para inventar

Há livros que se trazem assim, instintivamente, às cegas, fechados, só pela capa.
É arriscado? 
É histórico.

Diz quem sabe que é o primeiro "livro visual" para crianças. Vanguarda em 1922, vanguarda hoje, quase cem anos de pois.

Com pouco mais que umas quantas figuras geométricas bi e tridimensionais e um catálogo tipográfico de invejar, esta história acaba com um "e depois". Porque o futuro está aí em aberto para se inventar. Sempre.
"Os livros tornaram-se monumentos da modernidade", disse El. Obrigada por isso.

El Lissitsky era arquiteto e pintor, entre outras coisas, e conhecia o poder do livro. E também o poder da educação pelo livro: panfletário, por ventura, mas o veículo ideal para passar os ideais da Nova Ordem Mundial e as novidades da arte radical, sem figura (!) apregoada pelo pai do Suprematismo, o Sr Malevich.
 
Imaginemos então um passado de crianças, vivendo nos loucos anos 20, arquitetando estas histórias de um futuro intergalático. Sortudas.
E esperemos depois, que as nossas crianças — que são as do tal futuro intergalático — possam viver nuns outros loucos anos 20, construíndo elas própias novas histórias de futuro. Com um passado destes, têm, temos, obrigação disso.
........................................................................
A tale of two squares 
El Lissitzky
Tate, 2014 (first edition 1922)
isbn 9781849762571

13.5.15

Lucy in the sky with diamonds


Sentados àespera do autocarro para passearem no andar de cima, ouviram a historia enquanto gritavam em desespero, Burros, burros! No fim do conto lutaram para decidir quem era quem — Sam, Dave e o cão — e depois de ninguém querer ser o cão por razões óbvias, o T lácedeu, porque afinal, concluímos, o cão é o único que percebe ou pressente que se passa alguma coisa de importante. E ainda por cima, no final, ganha um belíssimo osso. 


Sam e Dave decidem ir escavar um buraco a ver se encontram alguma coisa espetacular. Com o truque da terra em corte (que jáconhecemos daqui), conseguimos ver o que eles não vêem e queremos desesperadamente avisá-los, vira, vira ou não vires, não vires; éque os miúdos viram sempre na altura errada e falham sempre as coisas espetaculares que estão debaixo da terra — cada vez maiores, brutais, magníficos diamantes. 
 

O B anda fascinado por pedras preciosas, jóias, minerais, brilhos, dourados, prateados. Arrastou- nos para a zona-verde-piso não-sei-quantos do NHM, quando pensei que os dinossáurios chegavam, para ver um monte de pedras. Não são pedras, são rochas. Não são só rochas, são minerais. Certo, certo.
Talvez isto seja afinal minha culpa, eu que trago pedras de todo o lado para casa. No meio da minha coleção, encontro de vez enquanto algumas que não fui eu que trouxe, como as encontro nos bolsos dos calções que vão para lavar. Filho de peixe. 

 

E explicar-lhes que nenhum diamante gigantesco étão espetacular quanto a aventura do Sam e do Dave? Uma metáfora para a vida, digo eu que ando sempre a pensar na vida. Há aquela frase sábia que diz que a felicidade não é chegar onde se quer mas antes o caminho que se faz até lá. Acho que eles percebem, a sério, mas continuam a gostar mais de gritar Burros! quando passam a página e, para nosso desespero, lávão os miúdos outra vez na direção errada, deixando para trás mais uma preciosidade.
 
Já o cão estásempre a olhar para o mesmo que nós. Chamem-lhe faro ou sexto sentido. Ou materialismo. No seu silêncio animalesco (de traços tão característicos de outros da mesma família), éele quem acaba por arranjar o desfecho para a história e para a aventura, fazendo acontecer algo bem mais extraordinário que encontrar um mega-diamante:

o B diz que deram a Volta ao Mundo, o T que estavam no Presente e chegaram ao Futuro e o R continua a gritar Burros, burros!! 
 
A história, porque éuma boa história, permite de facto múltiplas leituras. Uma amiga disse-me que mostra como muitas vezes não levamos os assuntos a fundo; alguém falou dum sonho como a queda da Alice, outro ficou baralhado com a chegada a casa e por fim uma atalhou que é mesmo um livro muito filosófico.
.............................................................
Sam & Dave dig a hole
Candlewick, 2014
Marc Barnett texto, John Klassen ilustração
isbn 9780763662295


25.4.15

Cravo com pernas

Este é o presente para uma das festas de anos deste agitado fim-de-semana.
Gosto de ir à livraria e pensar em cada miúdo, em particular, e escolher o livro certo. O orçamento já restringe um pouco, é certo, mas há sempre volta a dar, a volta certa.

 
Para o S vai este e para o T vai este. São na mouche, acho, mas conheço os dois miúdos desde os dois anos, por isso é fácil.
 
A L não conheço bem, de maneira que ia mais em branco. Só que de repente, inspirada pela data, quem sabe, estas Flores Mágicas pareceram-me perfeitas para a ocasião: um livro sobre uma menina com a idade da L, sobre a primavera que está aí, sobre a liberdade que vamos conquistando.
 
Nesta BD para não leitores (não leitores de palavras anyway),

acompanhamos esta capuchinho vermelho no caminho de regresso a casa pela mão do pai. Não vai sozinha, mas nem por isso deixa de ser livre. A mão do pai guia, pois sim, mas ela faz o seu caminho. Que belíssima lição.
 
A cor da capa da miúda, que primeiro é a única que brilha sobre o preto e branco, vai depois ganhando companhia ao longo do caminho, à medida que a menina encontra as flores e depois as oferece.

Uma espécie de cravo com pernas, é o que imagino, que através de outras flores aparentemente mais insignificantes, vai contagiando tudo e todos.
 
O livro acaba a cores e ela sai da página, em liberdade.
............................................................................ 
 Flores Mágicas 
Livros Horizonte, 2015
Joh Arno (texto), Sydney Smith ilustração 
isbn 9789722417716