2.4.14

DIY: livro infantil

O Super Livro para Super-Heróis apareceu no sapatinho, no Natal, para o R.

Tem trabalhado arduamente nele e, digo eu, está a ficar mesmo bem.

Umas vezes obedece às legendas, outras vezes é vê-lo pintar por puro prazer de ver as canetas a deixarem marcas no papel.

Às vezes os irmãos ou outros miúdos, chegam-se e ajudam na página ao lado.

Esgotou todas as canetas vermelhas de casa. O cor-de-rosa usa com parcimónia e só porque não há vermelho.

O livro já era extraordinário antes de ele o ter começado a fazer: ilustrações, atividades, cores, tipo de papel, formato, preço.

E tem tudo, autocolantes,
 
recortes,
 
desenho.

O R tem 3 anos e 4 meses e tem o livro há 3 meses; nesta idade é bonito ver como vão desenhando de forma diferente,

desde a maneira de pegar nas canetas, ao tipo de traço que escolhem e por onde começam o desenho.

E a maneira como acreditam que são mesmo o Homem-Aranha só porque vestiram um fato e vão lançando teias, tchiuu, às pessoas que passam na rua e que são, obviamente, vilões.

E é uma verdadeira lição de desenho, vê-lo trabalhar muito tempo seguido, cantando e recusando ir jogar futebol comigo para a praça —

porque hoje está um daqueles dias de sol e chuva, brilhante, brilhante.

E eu que até tenho bom toque de calcanhar...

Viva o Dia do Livro Infantil, viva o livro infantil.

........................................................................................... 
The Super Book for Super-Heroes
Laurence King, 2013
Jason Ford
isbn 9781780673059
primeiro visto num blogue que não me lembro
comprado aqui

26.3.14

ler (e construir) o mundo aos bocadinhos

Hoje (dia 22), celebramos os 5 anos da prateleira com bandeiras: as bandeiras são coisas extraordinárias, toda a gente sabe disso.

As bandeiras são todo um mundo, literalmente.
Tudo começou não há cinco mas há seis anos atrás quando o avô trouxe duma viagem a agora famosa "bola das bandeiras". Decorria um qualquer campeonato e o miúdo B chutava a bola pelo menos tantas vezes quantas perguntava de que país era aquela bandeira e a outra e a outra.


Daí, já não sei porquê (talvez porque as bandeiras são coisas extraordinárias, toda a gente sabe disso), começámos a fazer bandeiras com papéis e pauzinhos do Aya que, também o avô, trazia dos seus almoços. Depressa tivemos de arranjar um livro de bandeiras para alargar o leque de conhecimentos que a mini bola nos dava.

Depois veio o T e outro qualquer campeonato nos lembrou das bandeiras. Construímos mais umas, aprendemos mais outras. Afinal o campeonato era outro e havia países repetidos, claro, mas outros eram novos.

Os anos passaram e num verão quente, veio do supermercado da praia um caderno com bandeiras autocolantes. As sestas eram produtivas e aprenderam — porque eles aprendem, eu só esqueço — mais um bocadinho do mundo.
No outro dia percebemos que o B sabe quase todos os países do mundo e onde são. Justifica-se, dizendo que está sentado no lugar ao lado do planisfério, de maneira que sempre que há uma pausa, vai estudando. Eu faço o mesmo, juro, sempre que estou na mesma sala com um mapa mundo, mas no dia seguinte já não sei se o Belise é no Benine ou vice-versa.

Agora o R encontrou as velhas bandeiras. Algumas desapareceram outras estavam moribundas, como alguns países. Depois de as recuperarmos (quem dera fosse tão fácil recuperar os verdadeiros) decidimos completar a Europa. Começámos pela ocidental e estamos a caminho da oriental.
Não é preciso muito: uns papéis de cores, uma cola e uma fita cola, uma tesoura e uns pauzinhos. Umas canetas também ajudam nalguns emblemas. Não há régua e esquadro nem medições; elas ficam mesmo bem, assim tortas e feitas à mão.

Separáramos por continentes mas o R não se conformou em não pôr a Argentina na Europa. Ele lá sabe.

E assim vai aprendendo a ler (e a construir) o mundo aos bocadinhos— Argentina, Brasil, África do Sul, Croácia — pelas cores e pelas formas, que também são palavras, grandes palavras.
...............................................................................
O livro das bandeiras/As bandeiras do mundo

13.3.14

não largar e deixar ir o balão vermelho

Enquanto lia a história ao R pela quinta vez em cinco dias, e me distraía a ver o lápis e as impressões com blocos de madeira da Erin Stead,

pareceu-me que o Sr Bonifácio funcionava para os seus animais como têm de funcionar os pais para os filhos: de uma forma um pouco esquizofrénica. Explico: enquanto que a uns têm de empurrar para a frente, a outros têm de pôr travão, enquanto uns estão a precisar de mimo, outros precisam de espaço.

Outros precisam só que lhes assoem o nariz. Muitas, muitas e muitas vezes.
O Sr Bonifácio fica doente e não vai nesse dia ao Zoo, de modo que os animais fazem a viagem inversa, no autocarro número 5,

para ir dar ao Sr Bonifácio o que costuma ele dar-lhes: atenção, uma coisa preciosa, certo, mas a dar com conta, peso e medida, como dizem as sábias avós. Porque a um dado momento é mesmo bom e necessário que os animais, perdão, os miúdos, saibam fazer essa viagem de volta,

com delicadeza e naturalidade, como estes magníficos animais, perdão, desenhos.
É preciso atenção e é preciso dar atenção.

Uma sábia professora diz muitas vezes a frase politicamente incorreta que não é o mundo que se tem de adaptar às crianças, mas que são elas que se têm de adaptar ao mundo. Elas são o mundo já já amanhã, digo eu.

E quem não quer um belo mundo?
O livro ficou na quinta da última vinda, no Natal, deixado pelo N. Agora não há como escapar-lhes todas as noites, ao elefante, ao hipopótamo, à tartaruga, à coruja, ao pinguim.

E a todos os pormenores que ainda se descobrem pela primeira vez à quinta leitura ou continuam a surpreender à sexta, como os dedos dobrados dos pés do Sr Bonifácio ou o padrão invejável da sua colcha.
 
Difícil vai ser devolvê-lo.
........................................................................
O dia em que o Senhor Bonifácio ficou em Casa Doente
Editorial Presença, 2013
Philip Stead, texto e Erin Stead, liustrações
isbn 9789722351362
emprestado!

1.3.14

por causa das magnólias

Tem mesmo de parar de chover. A sério. Se por mais nada, por causa das magnólias.

Fizemos 400kms para poder deixar de subir escadas e passar uns dias a subir às árvores.

E as árvores estão como velhas loucas, desgrenhadas, esbranquiçadas de tanta água. Quase todas.

As magnólias não.

As magnólias estão aí a lembrar que tudo começa outra vez, sempre. E muito depressa, embora ainda falte um pouco mais para as andorinhas.

A seu tempo os botões floriram e abriram.

E a beleza destes corpos é indescritível.
E é por isso que é tão doloroso ver as pétalas caídas ainda antes de terem passado pelo esplendor do sol.

A que velocidade abre uma flor?

Cruschiform é Marie-Laure Cruschi (vale a pena espreitar o site). É ela a autora destas magníficas velocidades,

no top3 do momento, aqui, na p-d-b.
........................................................................................
A tutta velocità!
L'Ippocampo Edizioni, 2014
Cruchiform
isbn 9788867221110
primeiro visto e comprado aqui


6.2.14

ode a iela

Vou a Paris e na mala levo um embrulho.

Nesse embrulho vai um livro.







Nesse livro há uma maçã e uma lagarta.

Esse livro é para uma menina.
Essa menina nasceu há uns dias.
O livro foi feito por uma menina.
Essa menina morreu há uns dias.
Comprei o livro (outra vez) numa feira do Metro, provavelmente no dia da sua morte, sem o saber.
O livro custou menos de duas viagens de Metro.
A menina que me vendeu o livro gosta muito dele.
Eu também.
Eu também gosto muito da menina que escreveu, perdão, desenhou o livro.
Por isso fiquei triste por saber que tinha morrido mas feliz por o levar embrulhado numa folha dum caderno da minha bisavó, para uma nova menina.
Para Paris claro, de onde, como toda a gente sabe, vêm os bebés.