5.4.12

uma bíblia

Nas corridas matinais pela quinta, deixei de olhar da mesma maneira as borboletas que por ali andam aos beijinhos às flores: quando já estou com os bofos de fora, olho invejosa as suas asas elegantes que batem levemente sem nada terem a ver com as minhas pernas trôpegas.

Quando tenho de acelerar ala-que-se-faz-tarde no meio do campo das alfazemas para me escapar das abelhas em fúria, olho para as andorinhas lá no alto, em V,

e coro com os meus miseráveis 2 km por baixo dos seus sublimes 20000 km.
Da depressão, salvam-me os meus velhinhos ténis que me surpreendem todos os dias com a sua automática apanha de flores e que me lembram a guarda deste livro

sobre a qual o T exclamou : "iiiiiiihhhhhh quem é que fez isto?..."

E eu contei-lhe que tinha sido o senhor que tinha feito o teatro com papéis.
Agora o T faz desenhos de monstros com os primos,

(usando um dado colorido que manda na cor que devem obrigatoriamente usar). E já sei de onde lhe vem a inspiração.
Uma bíblia: foi a primeira palavra que me veio à cabeça quando li este ir e vir de explosivas imagens. Tem até duas partes, como um velho e um novo testamento: uma primeira parte em que se fala de nós e das nossas incríveis - duplo senso - viagens,

e uma outra em que se fala das viagens dos outros habitantes deste mundo, e que parecem de outro mundo.
(Claro que, para esta comparação, muito contribuiu também o Adão que por ali aparece a correr de folhinha entre as pernas.)

Fala-se também dum bem maior e discute-se o mal menor, ou vice-versa, talvez. É um livro muito sério, muito crítico e que faz pensar.
É por isso um excelente livro para este tempo de viagem, de paragem, de Passagem.
Uma Boa Páscoa.
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Ir e vir
Planeta Tangerina, 2012
texto Isabel Minhós Martins, ilustrações Bernardo Carvalho
isbn 9789898145338
primeiro visto aqui
oferecido!

2.4.12

acaso ii

E três anos depois, mesmo ali ao lado, o ciclo fecha-se; ou antes, dá a volta.

Na rua da Anchieta, quase em frente à Sá da Costa, na Feira dos Alfarrabistas que por ali acontece aos sábados, vieram-me parar às mãos os mesmos livros, mas desta vez dobrados, sem ser em poster (esses continuam num rolo à espera da moldura perfeita, da parede certa).
O da Primeira é bem melhor do que o da Segunda, em termos de ilustrações;

os textos dos dois são verdadeiras pérolas, datados e deliciosos.
Tenho agora estas edições de colecionador que acertam mesmo em cheio na prateleira de cima:

lições de desenho, paginação, uso da cor, delicadeza e síntese a preço de feira.
Mas também assentam como uma luva na prateleira de baixo: para o B textos de e para meninos de outros tempos,

para o T uma variante à Isaurinha (que agora o segue para todo o lado),

para o R (que já diz olá, mãe, pai , mar, água, bola e bebé) um manancial de vocabulário para nos levar à loucura com o seu dedo apontado a cada imagem à espera da legenda certa, muitas vezes seguidas.
E viva o Livro Infantil.
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Livro de leitura da 1ª classe
Editora Educação nacional de Adolfo Machado, 1968
texto Maria Luisa Torres Pires, Francisca Laura Batista e Glória N. Gusmão Morais ilustrações




Livro de leitura da 2ª classe
Editora Educação nacional de Adolfo Machado, 1968
texto Judite Vieira, Manuel Ferreira Patrício e Silva Graça ilustrações Maria Keil e Luís Filipe de Abreu
comprados aqui

22.3.12

ler com olhos de ver

Hoje a prateleira faz 3 anos.
Nada mais simpático para comemorar este aniversário do que o convite para fazer a montra (virtual) da livraria Pó dos Livros. Aqui está ela:

"Nunca pensei ser tão difícil fazer uma montra, não a atulhar com cem mil livros. Escolher antes um tema, uma lógica qualquer que diga a quem passa "entre, garantidamente, estes livros não ganharão ".
Mas escolher é tão difícil, implica deixar de fora tantos livros belíssimos.
Terão sempre a prateleira-de-baixo (cheia de hífens à moda antiga) de onde saem de vez em quando, à medida que a vida acontece.
Faço então hoje uma montra poética, espartana, sintética, pouco nacionalista- e por isso bastante provocatória - a pensar nos leitores que ainda não leem (ou que ainda não leem palavras). E estico a lista até aos 7 porque é há 7 anos que escolho livros para os habitantes cá de casa, razão primeira da prateleira-de-baixo.

0 - Jeu de formes (de Hervé Tullet), para ler com os olhos, com as mãos e, claro, com os dentes, de pernas para o ar ou de lado, de trás para a frente ou de frente para trás.

1 - Imagier des saisons (de Francesco Pittau+Bernadette Gervais), para virar as páginas e ver ao mesmo tempo, por dentro e por fora, o mundo inteiro em zoom, cheio de nomes, cheiros, cores e minúsculos importantíssimos pormenores.

2 - Creature (de Andrew Zuckerman), para pôr a mão na boca do leão, passar o dedo nos dentes do crocodilo, comparar os dedos às penas da águia imitando, claro, o som de cada animal à medida que se passa a página.

3 - Almost everything (de Joelle Jolivet), para conhecer todas as palavras do mundo e ver que os livros (e o mundo) são mesmo uma coisa GRANDIOSA.

4 - I numeri (de Luigi Vernonese), para contar pelos dedos os dentes, os limões, os degraus, as lâmpadas, os sinais, os carros, as janelas e o tempo que falta para chegar a casa dos Avós.

5 - Immaginario (de Blex Bolex), para começar a ler em maiúsculas, adivinhando o que são aquelas magníficas imagens que, quase sem nada, mostram tudo. E deitar-se a pensar porque é que o nudista está ao lado do homem invisível, ou porque é que a contorcionista faz parelha com o canalizador.

6 - Il ne faut pas confondre... (de Bruno Gibert), para depois de conhecer as palavras poder baralhá-las, brincar com elas e descobrir os seu sons e sentidos escondidos, traiçoeiros.

7 - Robinson Crusoe (de Alberto Morales Ajubel), para depois de saber ler não esquecer que as imagens também falam e que as aventuras ainda agora começaram."

[publicado em livrariapodoslivros.blogspot.com]

22.2.12

garimpando histórias 2

O ritual da Ilustrarte também mudou: O B lê a toda a hora, em todo o lugar, literalmente.


Por isso, na exposição, tive de lhe explicar que íamos ver as ilustrações e não ficar toda a tarde a ler a biblioteca do António Torrado (que bela História da Pedra lá está pendurada). Então, resolveu começar por escolher as mesas que tinham livros em cima;

depois passou para as mesas dos portugueses, patriota que é.
O T abriu e fechou dez mil gavetas à velocidade da luz e quando gostava especialmente de alguma arrastava-me até ao candeeiro que a iluminava. Pedras preciosas.
O R dormiu todo o tempo.
No fim os dois elegeram como favorito o da gaveta especial

de Daniel Lima & Cátia Serrão.

Eu tendo sempre para os italianos:

por mais diferentes que sejam uns dos outros são sempre muito bons.
Sílvia Bolognesi

foi uma das que assinalei,

tal como Oscar Sabini.

Uma imagem impressionante é a de Daniel Bueno,

do Brasil, bem como as David Daniel Álvarez Hernandez,

um estudante mexicano (vencedor do Prémio de Ilustração latino-americano de 2011) ou de Michel Roher,

da Áustria.
As mesas de cabeceira são altas demais para a maior parte dos miúdos abaixo dos 6 anos,

verdadeiro tropeço num projeto bem interessante.
É certo que abri mais do que uma vez a mesma gaveta, mas agrada-me a ideia de arquivo misturada com a de termos de fazer um esforço para ver, para procurar, para garimpar estas belas histórias.
[continua]
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Ilustrarte'11
Museu da Electricidade
Central Tejo|Lisboa
até 8 de Abril
Terça a Domingo, das 10h00 às 18h00
Entrada livre

21.2.12

garimpando histórias 1

Os rituais vão mudando à medida que o tempo passa. E agora somos mais um.
Vivem os três no mesmo minúsculo quarto, mas isso não é um problema para eles.
Quando há uns tempos conseguíamos pôr o R a dormir antes dos grandes, começou a haver um problema: como vão ler no quarto às escuras?
Experimentámos várias versões até que chegámos à solução dos leitores-mineiros.

Demos uso às lanternas de escalada oferecidas pela Avó T e então era vê-los com um olho de luz na testa, atentíssimos, de páginas brancas a brilhar no escuro, entre as suas mãos. Pedras preciosas.
Agora, se o R já está a dormir, acendemos uma luz mais baixa e a coisa passa sem problemas. Mas se vão os 3 ao mesmo tempo para a cama, o R já fica também com um livro na mão a folhear e a palrar até que o vou buscar para o colo para vir ouvir a história com o T, enquanto o B faz as suas leituras.
Ao fim de semana, a primeira coisa que fazem é ler: ou na cama - se lhes dizemos que ainda não são horas de acordar (acordam nas mesma e puxam um livro),

ou na sala - se já são horas decentes para acordar - onde, no inverno, a luz entra sem pedir licença de uma ponta à outra.
[continua]

13.2.12

missing

Desaparecemos por duas semanas. Não sei bem o que se passou mas todos ficámos doentes, de cama, à séria e o tempo aparentemente passou à nossa volta. Só nós é que desaparecemos entre muitas febres, demasiados remédios e noites muito muito mal dormidas.

As pessoas saudáveis passam a ser estranhas quando olhamos para elas da janela do carro a caminho do médico. Há pessoas que andam e riem e apertam o casaco à frente por causa do frio. E fazem isso naturalmente sem nenhum esforço aparente. Será possível? Agora que estamos melhores percebemos que sim, é possível comer e apetecer ler um livro ou falar com alguém. Mas estar doente é mesmo desaparecer um bocadinho.

Que a Isabel escreve bem, muito bem, já eu sabia, mas este livro é mesmo bem caçado (gosto desta expressão que nunca uso). É um livro muito bem educado, digamos, na forma como fala de tudo o que tem de falar sem nunca usar a palavra-chave, a palavra-final, a palavra-fatal. E quem diria que há tanta graça e filosofia no desaparecimento de uma meia? Mas há mesmo, acreditem.
A estrada-fita da Madalena dá muito bem a volta, literalmente, a esta linda e difícil não-história que é a de um caminho onde todos estamos e que todos vamos percorrer até ao fim - ? A estrada é preta mas continua livro fora, sem fim.

Um dia o T disse-nos que não queria morrer. Tinha 4 anos e disse-o com um ar bastante triste. O J, o pai, acabou por lhe dizer que podia ser que não morresse.

Eu olhei-o com um ar muito reprovador ao que ele me respondeu "O que foi? Não está provado com toda a certeza que eu vá morrer!..."
Eu tenho muitas saudades, em geral, das pessoas, dos sítios, do passado, do futuro até. Por isso não gosto de imaginar desaparecer - eu ou os outros. Mesmo assim, acredito mesmo que vamos aparecer outra vez e que vamos aparecer bem melhores, por isso as saudades são sempre temporárias, certo amiga S?
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Para onde vamos quando desaparecemos?
Planeta Tangerina, 2011
texto Isabel Minhós Martins, ilustrações Madalena Matoso
isbn 9789898145352
oferecido! (obrigada M)
aqui (com desconto e presentes até ao final de fevereiro!)

[nota: todas as imagens deste postal, exceto a da estrada, são roubadas do site da Planeta Tangerina porque, depois de verificar a terrível qualidade das minhas, fui ver o que lá havia e as escolhidas por lá eram exatamente as que eu tinha escolhido!]

16.1.12

T: de espada em riste

Mandaram-me um email, em tempos, a perguntar sobre livros de cavaleiros. A minha resposta não foi muito entusiasmante.

É que embora seja um tema com grande saída aqui - e presumo que em outras casas de rapazes - a maior parte dos livros sobre este tema é medonha.

Pensei que o mal estivesse no tema mesmo: cavaleiros são violentos, sujos e feios, logo os livros serão também. Por outro lado, se há cavaleiros tão bonitos para brincar,

então talvez fosse possível fazer livros sobre o tema indo além das lutas sanguinárias

e, já agora, com ilustrações decentes.
Não era preciso tanto, Delphine.

Cá em casa há um cavaleiro coragem: 3 chatices num ano só mas sempre bom espírito para dar e vender a toda a família e arredores.
Fez 5 anos, tem uns óculos novos muitíssimo estilosos, canta como ninguém e, muitas vezes por dia, do nada,

agarra-se ao meu pescoço para me vir dar um beijo. Com isso, consegue dissolver todo o raspanete que já estava apontado, por todas as vezes que é completamente desobediente ou que se perde a meio de uma tarefa, porque de distraíu numa qualquer brincadeira, sempre acompanhada por muitos discursos, muitas músicas e muitas onomatopeias.

Durante semanas seguidas devorou este livro. Com a ajuda do B foi ultrapassando os desafios, e a rapidez com que os seus olhos por trás das lentes encontraram as coisas escondidas é desconcertante.
O livro é maravilhoso:
1. nada fácil: num dos jogos tive - que vergonha - de ir às escondidas ver a solução...

2. quase infinito: é um livro-jogo mas que pode ser jogado de maneiras sempre diferentes, pois pressupõe que façamos escolhas e podemos fazê-las sempre diferentes de cada vez que lemos;

3. com ilustrações soberbas: ricas, requintadas, inteligentes (ver outro da mesma autora aqui).

Um grande livro para começar este ano de batalhas!
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O cavaleiro coragem
Orfeu Mini, 2010
Delphine Chedru
isbn 9789898327161
oferecido (obrigado Padrinhos!)