26.2.15

o mistério

Harris Burdick é um autor mistério que um dia apareceu na editora de Peter Wenders com um conjunto de 14 ilustrações, cada uma delas com um título e uma legenda. Vinha saber do interesse da editora na produção daquele livro. Tinha muitos outros desenhos, disse, mas trazia apenas aqueles para sondar do interesse da editora. O editor gostou imenso das ilustrações e pediu a Harris que voltasse no dia seguinte com as histórias. Harry deixou os desenhos e nunca mais voltou.

Wenders tentou encontrá-lo nos dias seguintes, e nos meses e anos que se seguiram, mas não mais encontrou rasto do autor.
Um dia, Chris Van Allsburg, de visita a casa do editor, agora reformado, vê os desenhos de Harris pela primeira vez e fica maravilhado.

Peter conta-lhe a história e mostra-lhe então um caixote cheio de contos feitos pelos seus filhos (e amigos dos filhos) que, ao longo dos anos, se divertiram a inventar as histórias para estes fabulosos desenhos.
Em 84, Van Alsburg decide editá-los pela primeira vez.
E agora, caro leitor, chegamos a um ponto em que há que fazer uma escolha: ou vive com esta história enigmática, misteriosa e feliz, ou quer ir saber o que a seguir lhe desvelo.

Tem a certeza?

Ok.
Então o que se passa é que não resisiti a ir googlar Harris Burdick: a história era demasiado misteriosa e perfeita para ficar por ali.
E pois, é o que é, uma história. Apenas isso?
Chris Van Alsburg, no seu estilo inconfundível, inventou Harris, fez os desenhos, os títulos, as legendas, inventou o editor, a visita à casa do editor, o caixote, pois, tudo... e editou o livro.
Depois disso, já muitos deram vida a estes contos que nunca existiram (e agora sim, existem) como Stephen King, que escreveu "The House on Maple Street";
 
em 93 houve até a edição dum The cronichles of Harris Burdick, com contos de vários outros autores de renome.

Ontem mostrei o livro no fim dum jantar que estava a ser demasiado demorado para a minha paciência. E de repente as bocas abriam-se mais — não para comer —, de espanto: o B queria saber desenhar como o Harris, o T fazia tãtãtãtã cada vez que eu acabava de traduzir uma das legendas e passava para a página seguinte, o R exigia ver mais de perto.
O mais velho, nitidamente mais rápido que eu, perguntou logo se era verdade. Conseguimos desviar assunto.

Depois acabarei por lhes revelar a invenção de Chris Van Allsburg; é que tenciono manter o mistério por mais algum tempo. Afinal, melhor que um mistério, só a beleza da possibilidade de criar um mistério.
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The Mysteries of Harris Burdick
 Andersen, 2011 (1ª ed. Houghton Mifflin,1984)
Chris Van Allsburg
isbn 9781849392792

19.2.15

Política

Como sabemos que um livro é uma obra-prima?
Quando o vemos agradar a uma menina de 2 anos, a miúdos de 4, de 8, de 10? Quando uma miúda de 16 o vai procurar para si à livraria depois de o ouvir contar? Quando é o presente perfeito para uma mãe que já não compraria um livro de cantos redondos aos seus filhos? Quando um adulto solta uma gargalhada de dar gosto, num corredor, na passagem entre um problema e outro, quando lhe mostro umas páginas?
 
Ou será que é quando é óbvio que com tão pouco se fez tanto? Terá sequer o Bernardo P. Carvalho tantas canetas quanto o R (marcadores, a sério? dirá um adolescente).

Será possível uma obra-prima ter tão poucos carateres? Poderá ser um texto assim, um não texto assim, considerado uma obra-prima?
 
No outro dizia apresentavam o Daqui ninguém passa como um dos grandes livros de 2014. Como saiu já avançado no ano, espero que muitos o julguem de 2015 para que continue a passar nos destaques das boas e das más livrarias.
(Julgo que estará, neste momento, claro que a minha opinião é que o Daqui é, no mínimo, um dos grandes livros da década!)
 
Sabemos que é uma obra-prima quando frases do livro entram no nosso dia-a-dia, quando o último grito que ouvimos, já de luz apagada, é "Canalha!" ou "O guarda é o nosso herói!"; ou quando para a minha pergunta, zangada, para trás no carro a meio do nosso cross-country, "mas afinal o que é que se passa?" a resposta é "o que se passa é que daqui ninguém pode passar..." A risota é geral e a viagem continua sem mais incidentes.
 
Quando o lemos à noite ao R,  o T, que supostamente está a ler outro livro, assinala que falta uma fala, se a saltamos por distração ou porque o cansaço já nos venceu. As palavras são importantes, já lá dizia o outro.

E agora faltava falar do livro, da maravilha da página imaculada, do piscar de olho aos adultos dos anos 70 (até o ET lá está), das private jokes para quem conhece os habitantes da PT (porque será que a escritora é a única que não tem direito a cores??, porque é que a Madalena está de cabelos em pé?, a Carol e a Cris estão iguais). E também faltava falar do guarda-coração-mole, da bola que resolve sempre tantos conflitos, das semelhanças — pura coincidência, claro — entre o general e alguns ditadores, dos que, ao longo das páginas, da direita e da esquerda, dançam, dançam, dançam como se não houvesse amanhã.

E também faltaria falar da maneira como a história avança da esquerda para a direita e depois também para fora, para o mundo, sem direita ou esquerda.
Mas mais vale lerem o livro.
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Daqui ninguém passa
Isabel Minhós Martins, texto e Bernardo P. Carvalho,
ilustrações
Planeta Tangerina, 2014
isbn 9789898145628



29.4.14

Lá fora está lindo

As árvores floriram e uma semana depois
estão cheias de folhas.
O batatal saiu da terra e há toupeiras no caminho.
Antes já chegavam ao campo e iam apanhar rãs. Agora levam o livro atrás para saberem que rãs apanharam. Ou se afinal são sapos.
Lá fora é um livro de peso sem ser pesado. Ensina sem ser do alto do estrado. Está ali mesmo, lá fora, no meio deles e do mundo.
Lá fora ensina a olhar e a querer saber mais, ensina latim (que é uma coisa muito séria) mas também que as pedras que pisamos aqui são diferentes
das que fazem desenhos nos passeios da cidade onde vivemos.
E que as da barragem, lá para Montargil, fazem uns magníficos "peixinhos".
Foi lá que encontrámos um passarinho morto e que viemos depois tentar descobrir quem era.
É divertido encontrar os desenhos do livro lá fora. E aprender que algumas plantas que nascem por ali podem ajudar a temperar o cabrito da Páscoa!
Neste guia estão escondidas mil histórias: umas já contadas, outras por contar. E quem conta somos nós. Um outro DIY.
Ao mesmo tempo que é sobre o mundo é completamente português
e isso é um grande orgulho. Hoje mais do que nunca.
Lá fora é sabedoria e preguiça 
porque as duas coisas fazem imensa falta.
Lá fora fala da lua e dos limões;
afinal, são os dois amarelos e estão lá fora.
Agora andamos a colecionar coisas que há aqui neste campo e Lá fora
e já ansiamos pelo verão, para mergulhar no capítulo da praia e podermos chegar a Cacela Velha e pedir um arroz de Pharus legumen e sabermos exatamente o que é que estamos a pedir.
Lá fora está lindo, lá fora mesmo e o livro, mesmo.
Vale a pena sair e entrar.
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Lá fora
Planeta Tangerina, 2014
Maria Ana Peixe Dias e Inês Teixeira do Rosário, texto Bernardo Carvalho, ilustração 
isbn 9789898145581

2.4.14

DIY: livro infantil

O Super Livro para Super-Heróis apareceu no sapatinho, no Natal, para o R.

Tem trabalhado arduamente nele e, digo eu, está a ficar mesmo bem.

Umas vezes obedece às legendas, outras vezes é vê-lo pintar por puro prazer de ver as canetas a deixarem marcas no papel.

Às vezes os irmãos ou outros miúdos, chegam-se e ajudam na página ao lado.

Esgotou todas as canetas vermelhas de casa. O cor-de-rosa usa com parcimónia e só porque não há vermelho.

O livro já era extraordinário antes de ele o ter começado a fazer: ilustrações, atividades, cores, tipo de papel, formato, preço.

E tem tudo, autocolantes,
 
recortes,
 
desenho.

O R tem 3 anos e 4 meses e tem o livro há 3 meses; nesta idade é bonito ver como vão desenhando de forma diferente,

desde a maneira de pegar nas canetas, ao tipo de traço que escolhem e por onde começam o desenho.

E a maneira como acreditam que são mesmo o Homem-Aranha só porque vestiram um fato e vão lançando teias, tchiuu, às pessoas que passam na rua e que são, obviamente, vilões.

E é uma verdadeira lição de desenho, vê-lo trabalhar muito tempo seguido, cantando e recusando ir jogar futebol comigo para a praça —

porque hoje está um daqueles dias de sol e chuva, brilhante, brilhante.

E eu que até tenho bom toque de calcanhar...

Viva o Dia do Livro Infantil, viva o livro infantil.

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The Super Book for Super-Heroes
Laurence King, 2013
Jason Ford
isbn 9781780673059
primeiro visto num blogue que não me lembro
comprado aqui

26.3.14

ler (e construir) o mundo aos bocadinhos

Hoje (dia 22), celebramos os 5 anos da prateleira com bandeiras: as bandeiras são coisas extraordinárias, toda a gente sabe disso.

As bandeiras são todo um mundo, literalmente.
Tudo começou não há cinco mas há seis anos atrás quando o avô trouxe duma viagem a agora famosa "bola das bandeiras". Decorria um qualquer campeonato e o miúdo B chutava a bola pelo menos tantas vezes quantas perguntava de que país era aquela bandeira e a outra e a outra.


Daí, já não sei porquê (talvez porque as bandeiras são coisas extraordinárias, toda a gente sabe disso), começámos a fazer bandeiras com papéis e pauzinhos do Aya que, também o avô, trazia dos seus almoços. Depressa tivemos de arranjar um livro de bandeiras para alargar o leque de conhecimentos que a mini bola nos dava.

Depois veio o T e outro qualquer campeonato nos lembrou das bandeiras. Construímos mais umas, aprendemos mais outras. Afinal o campeonato era outro e havia países repetidos, claro, mas outros eram novos.

Os anos passaram e num verão quente, veio do supermercado da praia um caderno com bandeiras autocolantes. As sestas eram produtivas e aprenderam — porque eles aprendem, eu só esqueço — mais um bocadinho do mundo.
No outro dia percebemos que o B sabe quase todos os países do mundo e onde são. Justifica-se, dizendo que está sentado no lugar ao lado do planisfério, de maneira que sempre que há uma pausa, vai estudando. Eu faço o mesmo, juro, sempre que estou na mesma sala com um mapa mundo, mas no dia seguinte já não sei se o Belise é no Benine ou vice-versa.

Agora o R encontrou as velhas bandeiras. Algumas desapareceram outras estavam moribundas, como alguns países. Depois de as recuperarmos (quem dera fosse tão fácil recuperar os verdadeiros) decidimos completar a Europa. Começámos pela ocidental e estamos a caminho da oriental.
Não é preciso muito: uns papéis de cores, uma cola e uma fita cola, uma tesoura e uns pauzinhos. Umas canetas também ajudam nalguns emblemas. Não há régua e esquadro nem medições; elas ficam mesmo bem, assim tortas e feitas à mão.

Separáramos por continentes mas o R não se conformou em não pôr a Argentina na Europa. Ele lá sabe.

E assim vai aprendendo a ler (e a construir) o mundo aos bocadinhos— Argentina, Brasil, África do Sul, Croácia — pelas cores e pelas formas, que também são palavras, grandes palavras.
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O livro das bandeiras/As bandeiras do mundo