25.4.15

Cravo com pernas

Este é o presente para uma das festas de anos deste agitado fim-de-semana.
Gosto de ir à livraria e pensar em cada miúdo, em particular, e escolher o livro certo. O orçamento já restringe um pouco, é certo, mas há sempre volta a dar, a volta certa.

 
Para o S vai este e para o T vai este. São na mouche, acho, mas conheço os dois miúdos desde os dois anos, por isso é fácil.
 
A L não conheço bem, de maneira que ia mais em branco. Só que de repente, inspirada pela data, quem sabe, estas Flores Mágicas pareceram-me perfeitas para a ocasião: um livro sobre uma menina com a idade da L, sobre a primavera que está aí, sobre a liberdade que vamos conquistando.
 
Nesta BD para não leitores (não leitores de palavras anyway),

acompanhamos esta capuchinho vermelho no caminho de regresso a casa pela mão do pai. Não vai sozinha, mas nem por isso deixa de ser livre. A mão do pai guia, pois sim, mas ela faz o seu caminho. Que belíssima lição.
 
A cor da capa da miúda, que primeiro é a única que brilha sobre o preto e branco, vai depois ganhando companhia ao longo do caminho, à medida que a menina encontra as flores e depois as oferece.

Uma espécie de cravo com pernas, é o que imagino, que através de outras flores aparentemente mais insignificantes, vai contagiando tudo e todos.
 
O livro acaba a cores e ela sai da página, em liberdade.
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 Flores Mágicas 
Livros Horizonte, 2015
Joh Arno (texto), Sydney Smith ilustração 
isbn 9789722417716

21.4.15

Retrato duma rapariga

A B esteve cá em casa e deixou um livro.

O B apanhou-o logo e domingo à noite veio dizer-me que o dos rapazes era muito melhor. Se calhar isso é porque és rapaz, disse eu.  Não, Mãe, acho que este é mesmo melhor. Ou então este, concedeu. Deu em critico o rapaz!... E eu dei conta que nunca aqui trouxe o magnífico Livro perigoso para rapazes. Um dia destes.

Então fui espreitar o livro e ri-me a perder: a B encheu-o de post-it nas páginas que lhe interessavam!

Quem sabe não poderá ser este um retrato de alguém, os sublinhados que deixou nos livros, os cantos das páginas que dobrou, os marcadores que lá ficaram. Mais do que a nossa biblioteca, a forma como nos apropriamos dos livros, os transformamos, já dirá, com certeza, muito sobre nós.

Numa belíssima exposição, no seguimento desta mas em Paris, uma das peças é este livro: a coleção — a catalogação—, dos objetos encontrados dentro dos livros da Hannah Arendt. Recibos de lavandaria, manuscritos, bilhetes... Não teremos o retrato de Hannah? Um retrato?

Estes post-it não serão (só) o retrato da B, aos (quase) 12 anos, mas mostram um bocadinho o que a preocupa, o que deseja, o que gosta. E mesmo só com a inicial, de repente pareceu-me que seria uma enorme inconfidência mostrá-los aqui.

De modo que este postal acaba antes do fim, que seria uma espécie de poema feito com os títulos dos artigos que esta menina marcou como importantes.
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O livro das raparigas — como ser a melhor em tudo
Juliana Foster texto, Amanda Enright ilustrações
Texto Editores, 2007
isbn 9789724735030


8.4.15

Grande Paris

Joelle Jolivet não só já nos habituou a grandes formatos, como já nos habituou a grandes livros.
Desta vez, com a ajuda duma escritora, leva-nos a passear por Paris, a preto e branco.
Estivemos lá ao vivo e a cores, de maneira que agora desdobrar no chão estes tapetes de ruas, levam-nos de volta a dias intensos numa grande senhora cidade.
Viajar em criança é toda uma outra coisa. A escala, aquilo a que damos atenção e importância, são grandes pequenas coisas ou pequenas grandes coisas. 
Saber pôr o bilhete na ranhura do metro, tirá-lo, rodar o torniquete e empurrar a porta
vale tanto ou mais que ter na ponta da língua uma bela tabuada.
 
Aprender novas palavras com a melhor pronúncia, é feito sem qualquer esforço nem nenhum manual por perto.
Ver o mundo com outros olhos, grandes olhos fora de escala, é simples
porque há uma predisposição para o novo, para o diferente.
Saber nomear grandes obras é de repente

 
ter saboreado mesmo essas obras.
Fazer de turista à séria, comme il faut!
 
A primeira viagem de que tenho memória é de ir aos EUA. E o que me lembro é: das ruas ficarem escuras muito cedo em NY porque os arranha-céus tapavam o sol; de comer ovos estrelados ao pequeno almoço e de achar maravilhoso que os meus primos estivessem, à mesma hora, a jantar quem sabe também ovos estrelados; de pisar muitas, mesmo muitas folhas caídas em frente à Casa Branca; de subir ao Empire State Building.
Também me lembro de me terem roubado uma mala preta igualzinha à da minha mãe, mas não vamos falar disso.
Aos 4 anos subir nos elevadores do ESB e ver as ruas em planta lá em baixo, qual pintura mondriânica, talvez tenha pesado, pesou com certeza, secretamente, na escolha da minha Arquitetura.
O que é que eles gostaram mais em Paris? Da Torre Eiffel, claro, e de terem subido ao altíssimo 2º andar. Estivemos aqui, diz ele, com ar(co) de triunfo na voz.
 
É sempre e ainda uma conquista tão simbólica, subir à torre mais alta da cidade.
Se a Vitória é de Samothrace ou de Setúbal, como dizia o S é perfeitamente indiferente; é apenas a Vitória. Como vitória é conseguir lutar contra os cotovelos de espanhóis e japoneses e chegar à frente para fotografar a Mona Lisa;
e depois perder o cartão de memória da máquina talvez ali ao fundo, debaixo do sarcófago egípcio. As fotografias foram-se, deixa lá B, a memória duma grande viagem a uma grande cidade, essa ficará gravada ao vivo e a cores.
E é por isso que já disse ao R que pode pintar o livro, porque não?
 
Está mesmo a pedi-las.
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À Paris
Ramona Badescu texto, Joelle Jolivet ilustrações
Les grandes personnes, 2014
isbn 9782361933470

2.4.15

Os fantásticos livros voadores e Mr Manoel de Oliveira

A sério que pensei que Manoel de Oliveira era imortal. Tinha-o como uma espécie de avô de nós todos e a sua vida passou a ser um sinal de força e beleza inspiradores. A passagem do tempo era assinalada por mais um filme dele. Bom ou mau pouco interessava, a partir de certa altura; o incrível era a vontade de fazer, de contar, de construir imagens, de viver intensamente.

Tinha guardado para hoje, dia mundial do livro infantil, este belíssimo filme. Sim, um filme, o que achava na verdade ser um pouco estranho. Mas há coincidências assim.

O fenómeno da quantidade de livros que dão filmes é a prova do que acontece na nossa cabeça quando lemos. É por isso que lemos, acho.




Este livro nunca o vi e nunca o li. O filme ganhou o Óscar para a melhor Curta Metragem de Animação em 2011. É um filme que nasceu dum livro e dum tal furacão Katrina. É um filme sobre livros, sobre ler, sobre morrer ou sobre viver.
Aqui fica hoje, em tripla homenagem, aos livros, aos filmes e ao nosso Manoel.

25.3.15

Ter 6 anos

Esta ventania que abana Lisboa há já alguns dias veio assinalar os 6 anos de prateleira.
E, claro, temos o livro perfeito para festejar a data.

 
O Chapeleiro e o Vento é uma edição da APCC, que tem vindo discretamente a editar do melhor: a coleção Ler com valores tem livros pequenos no formato e no preço e há várias pérolas por aí.
 
O Chapeleiro, de Catarina Sobral, é um livro, de facto, mas também é um poema e também é um filme. Imagino a Catarina a sonhar esta história: é um conto com palavras, certo, mas é como se as palavras tivessem vindo depois duma impressão, duma imagem, como acontece às vezes num poema ou num pequeno filme.
Andei à procura do booktrailer e não o encontrei. Mas espero que alguém, mais cedo ou mais tarde, pegue nesta história e a faça uma curta, uma bela curta, na linha desta ou desta.

 
Imagino os desenhos todos feitos a grafite (dizem que se sonha a preto e branco) e depois a escolha das duas cores que aparecem aqui e ali, com variações de tons, a sublinharem alguns objetos, a ajudarem na profundidade. Na verdade, não acredito que a Catarina sonhe mesmo a preto e branco.
 
O lápis ali anda, seguro e minucioso, com rasgos de genialidade, a fazer tudo com muito pouco.

O B perguntou se "o chapéu mais famoso da história da arte" era o dO lanche do Senhor Verde e depois comentou que tinha de ir a um chapeleiro destes. Sim, dá vontade de conhecer este senhor e de ter um chapéu feito por ele. Deve ser qualquer coisa. Havemos de falar dele ao rapaz dA Fábrica dos Chapéus, pode ser que o conheça.
 
Aos seis anos dizem-nos que estamos crescidos, vamos para a primária e a vida muda.
Aos seis anos, a prateleira-de-baixo também vai crescer: continuando a ser o que é, vamos mudar-lhe a cara e torná-la mais fácil de pesquisar, alargar a estante (como tem de acontecer tantas vezes!) e além de jogos e filmes, vamos partilhar mais coisas. Sempre com os livros no centro, como não poderia deixar de ser.


Chamem-lhe ventos de mudança, mudança de ares, uma lufada de ar fresco. O que queremos mesmo fazer é uma prateleira para o Vento levar. Nunca menos do que isso. Brevemente.
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O Chapeleiro e o Vento
Catarina Sobral
Edição APCC, 2015
isbn 9789898725035 

18.3.15

Vida de pai


A Galignani é uma belíssima livraria em Paris, em frente às Tulherias. É uma casa antiga e à antiga, onde os livreiros sabem de facto o que têm nas mãos.
 
O D é o brasileiro menos brasileiro que conheço, vive em Paris, é pai de duas meninas e livreiro aqui. Foi ele que nos ofereceu este livro.
 
Une vie exemplaire é uma espécie de manual da vida boa, do savoir faire, do savoir vivre.
 
Numa série de situações do quotidiano, pai e filha (com a ajuda do coelho) ilustram, muitas vezes de forma cómica, irónica ou absurda, os lemas que compõem este livro.
Há assuntos ligeiros e assuntos de peso, como na vida, mas todos tratados com elegância, leveza e seriedade ao mesmo tempo. Para pais e filhos.
Nada mau seria seguirmos este conselhos para uma vida exemplar, enquanto filhos e enquanto pais.
 
Floc'h, Jean-Claude Floch, um ilustrador francês que não costuma vir ao universo infantil (na verdade talvez não seja assim tão infantil, este livro), põe tudo lá; desde matérias prosaicas como as maneiras à mesa, até assuntos filosóficos, como a importância do sonho nas nossas vidas.

Vou-me lembrando das coisas insignificantes que o meu pai fazia comigo: a volta à casa — um ritual antes de adormecer, o record em marcha — a sério, não há ninguém que ande tão depressa como o meu pai, as músicas que me ensinou a ouvir e a assobiar. E de como isso foi, é, afinal, tão significativo.

É bonito ver o pai a acompanhar a filha ao longo das várias situações e ver como se põem na pele um do outro e se ensinam mutuamente. Quero acreditar que vou ensinando alguma coisa ao meu pai, como os meus filhos me ensinam a mim, como o meu pai me ensina também a ser mãe; o que é certo, é que quando eu já não espero aprender mais nada, há mil coisas novas que vou colhendo ainda dali e isso surpreende-me sempre. Já tenho idade para ser mãe e sou tão completamente filha.

Neste manual, embora não haja propriamente uma história, existe um princípio, uma certa narrativa e até um fim. Ou dois.
 
Um fim com uma reviravolta de deixar um sorriso nos lábios. Porque afinal há milagres todos os dias.

 
É só preciso estar atento e acreditar neles.  
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Une vie exemplaire
Floc'h 
Hélium, 2011 
isbn 9782358510769

12.3.15

O primeiro universo

Sou arquiteta. É isso que sou mesmo quando não estou a fazer arquitetura. Gosto de projetar, a toda a hora, seja o que for. E ser arquiteta deu-me essa capacidade, de pegar numa ideia, numa questão, e de a organizar, de a fazer crescer, fazer acontecer. De criar.
É isso que gosto de fazer (ou de ensinar) seja com pedra e cal, ou lápis e borracha, ou farinha e ovos, ou tesoura e tecido, ou luz e volumes, ou agulhas e lã.
Por isso — aqui confesso — este livro fui buscá-lo para mim.
 
Os miúdos já o apanharam, claro, e combinámos logo uma expedição à Póvoa do Varzim para encontrar a Casa Beires "onde parece que caiu uma bomba"!
Ao ler o livro, lembrei-me das várias viagens insólitas que fiz à procura de certos edifícios que tinha mesmo de ver e em que invariavelmente acabei num comboio, a caminho dos subúrbios de Amesterdão, de Kobe ou desta, nos arredores de Paris.
  
E da emoção de ver aquilo ao vivo, de entrar — ou de tentar entrar — para ver melhor, para perceber mais, para percorrer, para estar.
Onze casas magníficas.
 
E a escolha de casas para este manual de arquitetura e não de edifícios em geral é muitíssimo certeira: a casa é o nosso mundo (“um verdadeiro cosmos”, “o nosso primeiro universo”; “a casa é uma das maiores forças de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem”, já lá dizia Bachelard). E, se formos crianças, isso é ainda mais verdade.
Por aqui somos todos caseiros. Muito caseiros. A ideia de ficar um dia inteiro, de manhã à noite, em casa, de pijama, é eleita por todos. Na verdade só acontece quando alguém está doente e há essa desculpa. Normalmente cumpro o meu papel de enxutar todos de casa para ver outros mundos ou pelo menos ir chutar uma bola. Depois, exaustos, regressamos para onde queremos mesmo estar.
O B fez-me a pergunta fatídica de qual o melhor arquiteto do mundo; obviamente não consegui responder. Provavelmente não conseguiria fazer este livro.
Onze? Escolher onze? Sim, estas estão perfeitas, é uma ótima seleção. E as que ficaram de fora? Definitivamente não conseguiria fazer este livro.
O autor mostra mais do que só a casa e aproveita para dar um cheirinho de outras coisas. Ainda bem. Fui à procura das imagens reais destas escolhas, embora estas ilustrações sejam bem realistas, mas não estão no livro.
Acho que as vou imprimir e deixar entre as páginas: eles gostam sempre de saber que aconteceu mesmo assim, quando aconteceu mesmo assim.
 
Descubro outros dois outros livros, do mesmo autor, a que não sei se resisto.

Por agora, este será perfeito para oferecer a tantos amigos de que me fui lembrando
enquato lia as descrições simples mas cuidadosas do desenho das casas, das novidades construtivas, dos conceitos por trás de cada obra.
 
Fiquei com saudades de arquitetar, confesso. Espero ansiosa a hora. E gostei de perceber, assim neste conjunto, que muitos arquitetos foram outras coisas antes de serem arquitetos. Fizeram coisas, foram fazedores de qualquer coisa.

Vivo na casa que desenhei. O privilégio disso é inominável. Não pela qualidade da coisa (convivo todos os dias com asneiras) mas pela sensação permanente de criação: a consciência do ato simples mas poderoso dos antigos de espetar um pau na terra e de com isso começar. Começar qualquer coisa.
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Mãos à obra: cada casa a seu dono
Didier Cornille  
Orfeu Mini, 2015
isbn 9789898327451