29.5.15

Um futuro para inventar

Há livros que se trazem assim, instintivamente, às cegas, fechados, só pela capa.
É arriscado? 
É histórico.

Diz quem sabe que é o primeiro "livro visual" para crianças. Vanguarda em 1922, vanguarda hoje, quase cem anos de pois.

Com pouco mais que umas quantas figuras geométricas bi e tridimensionais e um catálogo tipográfico de invejar, esta história acaba com um "e depois". Porque o futuro está aí em aberto para se inventar. Sempre.
"Os livros tornaram-se monumentos da modernidade", disse El. Obrigada por isso.

El Lissitsky era arquiteto e pintor, entre outras coisas, e conhecia o poder do livro. E também o poder da educação pelo livro: panfletário, por ventura, mas o veículo ideal para passar os ideais da Nova Ordem Mundial e as novidades da arte radical, sem figura (!) apregoada pelo pai do Suprematismo, o Sr Malevich.
 
Imaginemos então um passado de crianças, vivendo nos loucos anos 20, arquitetando estas histórias de um futuro intergalático. Sortudas.
E esperemos depois, que as nossas crianças — que são as do tal futuro intergalático — possam viver nuns outros loucos anos 20, construíndo elas própias novas histórias de futuro. Com um passado destes, têm, temos, obrigação disso.
........................................................................
A tale of two squares 
El Lissitzky
Tate, 2014 (first edition 1922)
isbn 9781849762571

13.5.15

Lucy in the sky with diamonds


Sentados àespera do autocarro para passearem no andar de cima, ouviram a historia enquanto gritavam em desespero, Burros, burros! No fim do conto lutaram para decidir quem era quem — Sam, Dave e o cão — e depois de ninguém querer ser o cão por razões óbvias, o T lácedeu, porque afinal, concluímos, o cão é o único que percebe ou pressente que se passa alguma coisa de importante. E ainda por cima, no final, ganha um belíssimo osso. 


Sam e Dave decidem ir escavar um buraco a ver se encontram alguma coisa espetacular. Com o truque da terra em corte (que jáconhecemos daqui), conseguimos ver o que eles não vêem e queremos desesperadamente avisá-los, vira, vira ou não vires, não vires; éque os miúdos viram sempre na altura errada e falham sempre as coisas espetaculares que estão debaixo da terra — cada vez maiores, brutais, magníficos diamantes. 
 

O B anda fascinado por pedras preciosas, jóias, minerais, brilhos, dourados, prateados. Arrastou- nos para a zona-verde-piso não-sei-quantos do NHM, quando pensei que os dinossáurios chegavam, para ver um monte de pedras. Não são pedras, são rochas. Não são só rochas, são minerais. Certo, certo.
Talvez isto seja afinal minha culpa, eu que trago pedras de todo o lado para casa. No meio da minha coleção, encontro de vez enquanto algumas que não fui eu que trouxe, como as encontro nos bolsos dos calções que vão para lavar. Filho de peixe. 

 

E explicar-lhes que nenhum diamante gigantesco étão espetacular quanto a aventura do Sam e do Dave? Uma metáfora para a vida, digo eu que ando sempre a pensar na vida. Há aquela frase sábia que diz que a felicidade não é chegar onde se quer mas antes o caminho que se faz até lá. Acho que eles percebem, a sério, mas continuam a gostar mais de gritar Burros! quando passam a página e, para nosso desespero, lávão os miúdos outra vez na direção errada, deixando para trás mais uma preciosidade.
 
Já o cão estásempre a olhar para o mesmo que nós. Chamem-lhe faro ou sexto sentido. Ou materialismo. No seu silêncio animalesco (de traços tão característicos de outros da mesma família), éele quem acaba por arranjar o desfecho para a história e para a aventura, fazendo acontecer algo bem mais extraordinário que encontrar um mega-diamante:

o B diz que deram a Volta ao Mundo, o T que estavam no Presente e chegaram ao Futuro e o R continua a gritar Burros, burros!! 
 
A história, porque éuma boa história, permite de facto múltiplas leituras. Uma amiga disse-me que mostra como muitas vezes não levamos os assuntos a fundo; alguém falou dum sonho como a queda da Alice, outro ficou baralhado com a chegada a casa e por fim uma atalhou que é mesmo um livro muito filosófico.
.............................................................
Sam & Dave dig a hole
Candlewick, 2014
Marc Barnett texto, John Klassen ilustração
isbn 9780763662295


25.4.15

Cravo com pernas

Este é o presente para uma das festas de anos deste agitado fim-de-semana.
Gosto de ir à livraria e pensar em cada miúdo, em particular, e escolher o livro certo. O orçamento já restringe um pouco, é certo, mas há sempre volta a dar, a volta certa.

 
Para o S vai este e para o T vai este. São na mouche, acho, mas conheço os dois miúdos desde os dois anos, por isso é fácil.
 
A L não conheço bem, de maneira que ia mais em branco. Só que de repente, inspirada pela data, quem sabe, estas Flores Mágicas pareceram-me perfeitas para a ocasião: um livro sobre uma menina com a idade da L, sobre a primavera que está aí, sobre a liberdade que vamos conquistando.
 
Nesta BD para não leitores (não leitores de palavras anyway),

acompanhamos esta capuchinho vermelho no caminho de regresso a casa pela mão do pai. Não vai sozinha, mas nem por isso deixa de ser livre. A mão do pai guia, pois sim, mas ela faz o seu caminho. Que belíssima lição.
 
A cor da capa da miúda, que primeiro é a única que brilha sobre o preto e branco, vai depois ganhando companhia ao longo do caminho, à medida que a menina encontra as flores e depois as oferece.

Uma espécie de cravo com pernas, é o que imagino, que através de outras flores aparentemente mais insignificantes, vai contagiando tudo e todos.
 
O livro acaba a cores e ela sai da página, em liberdade.
............................................................................ 
 Flores Mágicas 
Livros Horizonte, 2015
Joh Arno (texto), Sydney Smith ilustração 
isbn 9789722417716

21.4.15

Retrato duma rapariga

A B esteve cá em casa e deixou um livro.

O B apanhou-o logo e domingo à noite veio dizer-me que o dos rapazes era muito melhor. Se calhar isso é porque és rapaz, disse eu.  Não, Mãe, acho que este é mesmo melhor. Ou então este, concedeu. Deu em critico o rapaz!... E eu dei conta que nunca aqui trouxe o magnífico Livro perigoso para rapazes. Um dia destes.

Então fui espreitar o livro e ri-me a perder: a B encheu-o de post-it nas páginas que lhe interessavam!

Quem sabe não poderá ser este um retrato de alguém, os sublinhados que deixou nos livros, os cantos das páginas que dobrou, os marcadores que lá ficaram. Mais do que a nossa biblioteca, a forma como nos apropriamos dos livros, os transformamos, já dirá, com certeza, muito sobre nós.

Numa belíssima exposição, no seguimento desta mas em Paris, uma das peças é este livro: a coleção — a catalogação—, dos objetos encontrados dentro dos livros da Hannah Arendt. Recibos de lavandaria, manuscritos, bilhetes... Não teremos o retrato de Hannah? Um retrato?

Estes post-it não serão (só) o retrato da B, aos (quase) 12 anos, mas mostram um bocadinho o que a preocupa, o que deseja, o que gosta. E mesmo só com a inicial, de repente pareceu-me que seria uma enorme inconfidência mostrá-los aqui.

De modo que este postal acaba antes do fim, que seria uma espécie de poema feito com os títulos dos artigos que esta menina marcou como importantes.
........................................................   
O livro das raparigas — como ser a melhor em tudo
Juliana Foster texto, Amanda Enright ilustrações
Texto Editores, 2007
isbn 9789724735030


8.4.15

Grande Paris

Joelle Jolivet não só já nos habituou a grandes formatos, como já nos habituou a grandes livros.
Desta vez, com a ajuda duma escritora, leva-nos a passear por Paris, a preto e branco.
Estivemos lá ao vivo e a cores, de maneira que agora desdobrar no chão estes tapetes de ruas, levam-nos de volta a dias intensos numa grande senhora cidade.
Viajar em criança é toda uma outra coisa. A escala, aquilo a que damos atenção e importância, são grandes pequenas coisas ou pequenas grandes coisas. 
Saber pôr o bilhete na ranhura do metro, tirá-lo, rodar o torniquete e empurrar a porta
vale tanto ou mais que ter na ponta da língua uma bela tabuada.
 
Aprender novas palavras com a melhor pronúncia, é feito sem qualquer esforço nem nenhum manual por perto.
Ver o mundo com outros olhos, grandes olhos fora de escala, é simples
porque há uma predisposição para o novo, para o diferente.
Saber nomear grandes obras é de repente

 
ter saboreado mesmo essas obras.
Fazer de turista à séria, comme il faut!
 
A primeira viagem de que tenho memória é de ir aos EUA. E o que me lembro é: das ruas ficarem escuras muito cedo em NY porque os arranha-céus tapavam o sol; de comer ovos estrelados ao pequeno almoço e de achar maravilhoso que os meus primos estivessem, à mesma hora, a jantar quem sabe também ovos estrelados; de pisar muitas, mesmo muitas folhas caídas em frente à Casa Branca; de subir ao Empire State Building.
Também me lembro de me terem roubado uma mala preta igualzinha à da minha mãe, mas não vamos falar disso.
Aos 4 anos subir nos elevadores do ESB e ver as ruas em planta lá em baixo, qual pintura mondriânica, talvez tenha pesado, pesou com certeza, secretamente, na escolha da minha Arquitetura.
O que é que eles gostaram mais em Paris? Da Torre Eiffel, claro, e de terem subido ao altíssimo 2º andar. Estivemos aqui, diz ele, com ar(co) de triunfo na voz.
 
É sempre e ainda uma conquista tão simbólica, subir à torre mais alta da cidade.
Se a Vitória é de Samothrace ou de Setúbal, como dizia o S é perfeitamente indiferente; é apenas a Vitória. Como vitória é conseguir lutar contra os cotovelos de espanhóis e japoneses e chegar à frente para fotografar a Mona Lisa;
e depois perder o cartão de memória da máquina talvez ali ao fundo, debaixo do sarcófago egípcio. As fotografias foram-se, deixa lá B, a memória duma grande viagem a uma grande cidade, essa ficará gravada ao vivo e a cores.
E é por isso que já disse ao R que pode pintar o livro, porque não?
 
Está mesmo a pedi-las.
.............................................................................
À Paris
Ramona Badescu texto, Joelle Jolivet ilustrações
Les grandes personnes, 2014
isbn 9782361933470

2.4.15

Os fantásticos livros voadores e Mr Manoel de Oliveira

A sério que pensei que Manoel de Oliveira era imortal. Tinha-o como uma espécie de avô de nós todos e a sua vida passou a ser um sinal de força e beleza inspiradores. A passagem do tempo era assinalada por mais um filme dele. Bom ou mau pouco interessava, a partir de certa altura; o incrível era a vontade de fazer, de contar, de construir imagens, de viver intensamente.

Tinha guardado para hoje, dia mundial do livro infantil, este belíssimo filme. Sim, um filme, o que achava na verdade ser um pouco estranho. Mas há coincidências assim.

O fenómeno da quantidade de livros que dão filmes é a prova do que acontece na nossa cabeça quando lemos. É por isso que lemos, acho.




Este livro nunca o vi e nunca o li. O filme ganhou o Óscar para a melhor Curta Metragem de Animação em 2011. É um filme que nasceu dum livro e dum tal furacão Katrina. É um filme sobre livros, sobre ler, sobre morrer ou sobre viver.
Aqui fica hoje, em tripla homenagem, aos livros, aos filmes e ao nosso Manoel.

25.3.15

Ter 6 anos

Esta ventania que abana Lisboa há já alguns dias veio assinalar os 6 anos de prateleira.
E, claro, temos o livro perfeito para festejar a data.

 
O Chapeleiro e o Vento é uma edição da APCC, que tem vindo discretamente a editar do melhor: a coleção Ler com valores tem livros pequenos no formato e no preço e há várias pérolas por aí.
 
O Chapeleiro, de Catarina Sobral, é um livro, de facto, mas também é um poema e também é um filme. Imagino a Catarina a sonhar esta história: é um conto com palavras, certo, mas é como se as palavras tivessem vindo depois duma impressão, duma imagem, como acontece às vezes num poema ou num pequeno filme.
Andei à procura do booktrailer e não o encontrei. Mas espero que alguém, mais cedo ou mais tarde, pegue nesta história e a faça uma curta, uma bela curta, na linha desta ou desta.

 
Imagino os desenhos todos feitos a grafite (dizem que se sonha a preto e branco) e depois a escolha das duas cores que aparecem aqui e ali, com variações de tons, a sublinharem alguns objetos, a ajudarem na profundidade. Na verdade, não acredito que a Catarina sonhe mesmo a preto e branco.
 
O lápis ali anda, seguro e minucioso, com rasgos de genialidade, a fazer tudo com muito pouco.

O B perguntou se "o chapéu mais famoso da história da arte" era o dO lanche do Senhor Verde e depois comentou que tinha de ir a um chapeleiro destes. Sim, dá vontade de conhecer este senhor e de ter um chapéu feito por ele. Deve ser qualquer coisa. Havemos de falar dele ao rapaz dA Fábrica dos Chapéus, pode ser que o conheça.
 
Aos seis anos dizem-nos que estamos crescidos, vamos para a primária e a vida muda.
Aos seis anos, a prateleira-de-baixo também vai crescer: continuando a ser o que é, vamos mudar-lhe a cara e torná-la mais fácil de pesquisar, alargar a estante (como tem de acontecer tantas vezes!) e além de jogos e filmes, vamos partilhar mais coisas. Sempre com os livros no centro, como não poderia deixar de ser.


Chamem-lhe ventos de mudança, mudança de ares, uma lufada de ar fresco. O que queremos mesmo fazer é uma prateleira para o Vento levar. Nunca menos do que isso. Brevemente.
............................................................................
 
O Chapeleiro e o Vento
Catarina Sobral
Edição APCC, 2015
isbn 9789898725035