10.2.16

Grande demais

Pus no saco todos os livros que temos da coleção A Arca do Tesouro. O B e o T já estão grandes demais para eles, o R ainda não os consegue ler e estes livros são ideais como primeiros livros de ler sozinhos: ainda cheios de ilustrações para ajudar, mas já com uma história completa para ler umas páginas a cada noite. Mesmo sabendo isto, com a perspetiva dos dias de chuva que se adivinhavam, pareceram-me uma boa ideia para lhos ler alto, aqui, onde o tempo passa mais devagar. Afinal as férias dão tempo para histórias maiores.

Durante o dia, mesmo com a chuva, chuva, chuva, a azáfama é grande demais para histórias embora o T e o B leiam e plantem livros pelos cantos da casa, entre jogos de basquete à chuva, o jogo Risco pela tarde a dentro, Tintin (os filmes) ao lanche, órgão e ipad antes do jantar, xadrez ao serão, uns tpc no meio disto tudo. Na hora dos tpc, o R faz mais uma montanha.
 
E à noite a hora é sagrada.

Começámos pelo clássico dos clássicos e, no dia seguinte, foi o B que quis ler outro ao R para matar saudades: Adoro esta história.
Ontem chegámos ao Tubarão, um outro clássico que li devagar, sem horas para apagar a luz.
Aqui na quinta os banhos de banheira assumem proporções épicas (lembro-me sempre dos banhos públicos japoneses, talvez um pouco mais barulhentos, pronto...) e são o cenário ideal para poder imaginar um tubarão na banheira. Na nossa ínfima banheira seria demasiado inverosímil.

O T só se lembrava que adorava a história mas já não sabia como acabava; o B quis lê-la sozinho depois. O entusiasmo mantém-se; quem disse que estavam grandes demais?
O Caderno de Palavras Difíceis do miúdo acompanha a história e interrompe-nos com explicações de palavras novas. No fim do livro está lá mesmo o Caderno, mas como não me lembrava disso, lá tive de ir dando explicações mais ou menos enroladas a meio da história; algumas palavras já foi o T a explicar ao R o que queriam dizer.

O tubarão na banheira é contado com grande detalhe tornando possíveis todas as situações que sabemos impossíveis. Mas como é narrado sabendo que miúdos que são miúdos estão sempre à espera da oportunidade de dizerem, ah isto é impossível, ah, isto não dava..., acreditamos mesmo que o tubarão podia vir na mala do táxi, porque esta foi cheia de água salgada, e que o tubarão cabe com o peixinho Osvaldo no minúsculo aquário, porque está lá uma fotografia a comprová-lo.

A dupla David Machado/Paulo Galindro recebeu em 2010 o prémio da SPA para este livro e agora têm um novo que estou muito curiosa para ver.
O grito final do avô — que é afinal quem despoleta toda esta história sem ver nada (a história começa com os óculos esmigalhados do avô) — é acompanhada pelo nosso grito também!

Mas com a palavra spoiler tão em voga, nem pensem que vos vou dizer porquê.
_____________________________________________________________
*Um pedido de desculpas pela qualidade das imagens, todas elas chuvosas...
...............................................................
O tubarão na banheira
Editorial Presença, 2009
David Machado texto, Paulo Galindro ilustração 
isbn 9789722341455

8.2.16

Enfiar a carapuça

Um exercício engraçado para fazer pode ser ler um livro sobre animais com se de seres humanos se tratasse. Experimentem.

Esta enciclopédia de criaturas que agrupa os animais por categorias mais ou menos inesperadas é ideal para isso.
 
Em vez da clássica associação em Os mamíferos ou Animais do mar, ou Os cobertos de penas, aqui os grupos são coisas como Os desaparecidos,
Os exuberantes (ou os armadões se quiserem,),

Os amigos da família,

Os azarados,

e por aí fora. Os em-vias-de-extinção
 
estão todos de lágrimas nos olhos, é comovente.
Como veio lá da Terra Nova, está em inglês,
 
o que é ótimo para aumentar o vocabulário.

É mais um livro de animais, pois, mas absolutamente irresistível quer pela forma como agrupa os bichos, quer pela qualidade das ilustrações, as cores, a composição dos quadros.
 
E se ainda não experimentaram enfiar a carapuça em nenhum (afinal é Carnaval), vejam lá quem é que estes vos fazem lembrar?

 ..............................................................................................
Creaturepedia
Wide Eyed Editions, 2015
Adrienne Barman
isbn 9781847806963

26.1.16

Preencha o espaço em branco

No fim-de-semana fomos ver "A caminhada dos elefantes" de Miguel Fragata e Inês Barahona.

Foi muito bonito. Não é sobre a Morte, avisa o ator no início. E ficou combinado, que se distraísse e dissesse alguma destas palavras — morte, morrer, morrido, matado, morto —, o público deveria avisar: o R passou a hora inteira a pôr o braço no ar. Porque é sobre a morte.

— O que é a morte R?
— É morrer. 
— E o que é morrer?
(Longo silêncio)
— É roubarem os brinquedos.
— Porquê?
— Porque é mau.

Às vezes é bom conversar, outras vezes um livro, um espetáculo, é o que nos ajuda a comunicar com os miúdos. Ou até connosco próprios. É que do nada não se pergunta a ninguém como se sente hoje. Como do nada não se fala sobre a morte, mas um livro salva — perdão —, serve para tanta coisa. 

Mais um abecedário como tantos, mas um objeto tão único: Madalena Moniz põe o miúdo a dizer como se sente; mas ele não fala, nós é que criamos frases na cabeça e sentimentos noutro sítio qualquer quando o vemos aqui e ali, desamparado ou destemido nestes belíssimos quadros, graficamente tão universais e tão portugueses.
Algumas situações são cómicas,

outras poéticas,
 
muitas duras, como a vida.

Não é só sobre a morte que é difícil falar. É difícil falar sobre o que sentimos e é difícil saber o que os outros sentem ou porque se sentem assim. E é verdade que não temos sempre de saber tudo, mas porque nem sempre estamos fortes,

é bom que haja maneiras de termos algumas certezas importantes.

O nosso livro ainda não tem nada escrito nas páginas do fim, mas estou cheia de vontade de ir preenchendo os espaços em branco.
.........................................................................
Hoje sinto-me
Orfeu Mini, 2014
Madalena Moniz
isbn 9789898327291

20.1.16

365

Sobre a mesa de jantar temos umas grandes janelas, no teto. À noite, os vidros são espelhos e brincamos com os nosso reflexos, a direita e a esquerda ao contrário, de como conseguimos tocar na comida com as mãos sem nos sujar, como o mundo fica ao contrário. Por vezes passa um avião e lembramo-nos de viagens que fizemos ou que queremos fazer, ou opinamos se o avião é a jato e sobre o que é que isso quer dizer exatamente...

De dia vemos a chuva forte ou molha-tolos, o céu azul, cor-de-rosa, branco ou cinza, os bandos de andorinhas a fazerem desenhos numa folha gigante. Ou temos só as nuvens em cima da cabeça.
Um ano inteiro passa sobre a nossa mesa, do avesso.

O Lá fora acompanha-nos nas férias; agora temos esta agenda para explorar a natureza, nem que seja aqui, no meio da cidade. Está no braço do sofá para ir espreitando.

Lembro-me de viagens intermináveis no banco de trás e da minha mãe tentar aproveitá-las para nos mostrar as lantanas no meio da auto-estrada, a esteva nos montes, o modo como os ciprestes rodeavam os cemitérios mas também a entrada da quinta da sua infância, de como algumas árvores estavam agora sem folhas, mas outras não. Lembro-me do ditado"céu cavado dentro de três dias é molhado" e da lua com auréola significar chuva, ou dum pôr-do-sol muito laranja significar um dia seguinte de muito calor.

Também me lembro de não achar qualquer interesse nisto tudo, até que um dia me interessou, e passei eu a perguntar afinal que flores eram aquelas, como é que era aquele ditado ou o que é que são nuvens de vento.

De modo que agora, espreito a agenda distraída mas religiosamente cada semana e aproveito para, apontando pela janela da sala a meio da refeição ou da janela do carro (agora no banco da frente), tentar perceber se as nuvens são altas ou baixas, cumulonimbus ou cirro.

E mesmo que muitas vezes eles olhem distraídos e continuem depois a falar sobre o Benfica ou a NBA, sei que muitas vezes é assim, distraída e religiosamente, que se aprende melhor a ser curioso e a apreciar o mundo.

De outra janela vejo como a mesma paisagem é todos os dias tão diferente e de outra ainda consigo perceber, pelo modo como voam as bandeiras do castelo, se amanhã chove ou não. Não sei isto é só ficar velha ou ficar mais sábia.
Este fim-de-semana vamos começar a apontar a hora do pôr-do-sol e fazer desenhos de nuvens.

Há semanas em que não vamos fazer nada, mas não faz mal; esta é uma agenda para muitos anos inteiros!
.........................................................................................................
Um ano inteiro — Agenda para explorara a natureza
Planeta Tangerina, 2015
Isabel Minhós Martins texto, Bernardo P. Carvalho ilustrações
isbn 9789898145703

12.1.16

A odisseia dum ano

Gosto de ler livros grandes, diz o B. Nas horas vagas vai devorando a coleção da Agatha Christie dos meus pais (o que me vai salvando) misturando alegremente quadradinhos nos intervalos, num espelho daquilo que é uma belíssima adolescência onde vem entrando de mansinho.
Hoje ia a uma representação da Aventura de Ulisses de modo que lhe resolvi ir buscar a Odisseia e a Ilíada adaptadas de Frederico Lourenço. Na escola pediram a versão da Maria Alberta Menéres que ele já tinha lido e que eu tinha contado em voz alta aos mais novos para que o T lhe pegasse (como pegou e adorou!). E também já tive na mão muitas vezes as versões do João de Barros porque adorei (e eles também) ler a dos Lusíadas, mas acabei sempre por não as trazer.

Este domingo leu a Odisseia e hoje acabou a Ilíada. Ficou desapontado porque o episódio do cavalo de Tróia não aparece pormenorizado em nenhum dos dois...

Já me cansei de lhe perguntar (quando acaba um livro a esta velocidade) se leu a bem história; como também só pergunto se o estudo já chega apenas para fazer o meu papel de mãe. Cada pessoa tem o seu ritmo, aprendo eu, e o deste é ao da velocidade da luz.
Muitas vezes vejo-o a reler livros e percebo que não faz mal. À velocidade a que lê tenho a certeza de que à segunda lê um outro livro.

No natal quis dar-lhe o Moby Dick (um livro grande...) mas o orçamento já estava curto de modo que optei por outros. Este foi um deles.

Para um menino rápido a poesia não vem fácil. Mas é tão bom que de vez em quando não resisto a apresentar-lha de diferentes maneiras. Nada melhor que uns aforismos e umas pequenas anedotas ou achados para ajudar a ler de outra maneira, com mais vagar, como dizem os alentejanos.

Ter vagar é ter tempo devagar, que não é o mesmo que apenas ter tempo. Há coisas para as quais é preciso vagar. Para ler poesia, aforismos, anedotas ou achados que sejam, é preciso vagar na cabeça, vagar a cabeça, demorar-se, estar especialmente disponível.

Há alturas em que não posso ler em inglês, há outras em que a poesia não funciona, há dias em que só um conto me salva. É bom que aprenda o gosto de ler um livro grande mas que também se entusiasme com duas ou três palavras numa página. A seu tempo, pois é.

Conheci O livro do ano numa oficina com a Catarina Sobral em que ela falou sobre os diferentes tipos de relação entre texto e imagem. Já aqui escrevi sobre a desatenção a que votam, votamos, as ilustrações quando aprendemos a ler e O livro do ano não é para crianças, é para o ano, é para todos. Tem texto e tem imagem em contraponto, se bem aprendi a lição: há ironia, há uma interpretação alternativa para quem a quiser ler, ver, encontrar com vagar. Não é a adolescência o lugar perfeito para tudo isto?

Organizado nas quatro estações, O livro do ano que é afinal o diário duma menina. Um diário de alguns dias que faz olhar para as coisas dum modo poético, cómico, enviesado, surpreendente. Começa na primavera para nos lembrar que depois desta chuva insana há de brotar muita coisa por esses campos fora e que beldroegas continuarão a nascer entre as pedras da calçada nos passeios de Lisboa.
.........................................................................................
O livro do ano
Alfaguara, 2013
Afonso Cruz
isbn 9789898775443