19.6.13

o problema da gravidade, ou a gravidade do problema

Este li-o. 
Fui direitinha a ele à conta daquele rapazinho tão reconhecível a voar no meio da capa.
Oliver Jeffers, só podia.
Depois encantei-me com o título: gosto de títulos grandes e terríveis.
John Boyne, não conhecia.


O bom da história é que parte dum mote cómico mas depois há um acontecimento terrível que fica a pairar, com paira o Barnaby, durante todo o livro e durante toda a leitura.
As personagens vão sugerindo espalhadas pelo globo terrestre - e arredores - como cromos da "caderneta das diferenças". E o Barnaby vai percebendo que há outros que são como ele, quer dizer, diferentes como ele.
A aventura é mais ou menos previsível mas divertida: sabe bem dar esta volta ao mundo revisitando alguns lugares. É certo que também vai criando água na boca para visitar outros. Quem sabe um dia.
Quando acabei passei-o ao B e lá andou ele a engoli-lo por todos os cantos, literalmente.

Gostou. Não comentou a coisa terrível que fez a mãe do Barnaby. Não comentou a coisa terrível que decidiu o Barnaby.
Um dia destes pergunto-lhe.
NOTA: crime pior do que o da mãe do Barnaby são estas ilustrações a preto e branco...
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A coisa terrível que aconteceu a Barnaby Brocket
Editora Bertrand, 2013
texto Jonh Boyne, ilustrações Oliver Jeffers
isbn 9789722526470
primeiro visto e comprado aqui

14.5.13

irmão avião

Li o Irmão Lobo no avião.
Ao meu lado ia uma sueca com dois lobos tatuados no braço, juro que é verdade. E a sueca era enorme e loira como as suecas são nas histórias, juro que é verdade.

No outro braço tinha tatuada uma espécie de pulseira índia, de modo que ali, entre ela e o oceano, entre as lentilhas amarelas com tikka masala e a almofada com a fronha que me punha os cabelos no ar, me confundi com a Bolota.

O livro chegou na hora H, mesmo antes de me pôr a caminho do outro lado do mundo. Nesse dia, em que ia pela rua como sempre armada em homem do saco a dizer palavrões para dentro - porque toda a gente sabe que as mães não dizem palavrões - contra o peso que iria carregar até ao 5º andar, e me chamam da esquina da rua acenando um pacote (sim, há livros que me chegam à esquina da rua em maravilhosos pacotes, juro que é verdade), subi leve, afinal, para pôr o livro na mala.

Escrevo este postal sentada entre as nuvens e a sueca - que agora tem um colar feito de almofada (juro que é verdade) e podia dizer que escolhi a refeição vegetariana porque é sempre certo que é a melhor nos aviões, ou porque é mais saudável, ou porque é menos um frango degolado; o que é certo é que a Miss Kitty teve grande influência sobre a minha escolha, não há como negá-lo.

Ela é a irmã que nunca tive e que procuro atabalhoadamente em cada uma das minhas amigas. O que vale é que o meu irmão é um belíssimo Fóssil, a minha mãe é uma Força da Natureza e o meu pai um Homem de Sol. Por isso, posso hoje ser uma Bolota feliz e, ao mesmo tempo, um furacão Blanche, o que é mesmo muito estranho.
Não perceberam? Pois é, terão de ler o livro.
Eu no final fiquei a saber que:
1. Carla Maia de Almeida tem a idade do meu Fóssil e ambos nasceram no ano em que o Homem pisou a lua - facto que sempre, secretamente, invejei e que nunca lhes perdoarei.
2. António Jorge Gonçalves é aquele que andou pelo mundo a desenhar pessoas nos Metros - facto que sempre, abertamente, invejei e que nunca lhe perdoarei.
3. Dois Passos e um Salto tem neste volume II um romance para miúdos nada fácil, nada meigo, mas muito bom. Esta deve ser a tal história para a qual há um aviso sobre "histórias com final feliz e outras que farão o possível para isso".

E descanso um pouco mais, enquanto os cabelos se põem em pé na almofada notando já sem espanto, mesmo antes de fechar os olhos, que a sueca tem desenhos de flores nas unhas,

mesmo iguais aos que estão no desenho da página 50.
Juro que é verdade.
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Irmão Lobo
Planeta Tangerina, 2013
texto Carla Maia de Almeida, ilustração António Jorge Gonçalves
isbn 9789898145536
oferecido!

23.4.13

tanto mar

Que saudades do mar.

Do mar azul, do mar da bóia, do mar do cabo, do mar das dunas, da estrela-do-mar, do mar do farol,

do mar da gaivota, do mar do homem-rã, do mar da ilha, do mar da jangada, do mar do krill, do mar do love boat, do mar morto, do mar de Neptuno, do mar do oriente, do mar da praia, do mar da quimera,

do mar do remo, do mar da Sophia, do mar da tempestade, do mar do umiaque, do mar da vela, do mar do windsurf, do mar do xaveco, do mar do yellow submarine, do mar de zarpar.

"MAR" é um "pasquim" excecional - que me perdoem as excluídas indignadas: este "arrazoado de banalidades" é meticuloso, metódico, carinhoso, até.

Mais que um dicionário ou um livro de atividades, este atividário é uma carta de amor ao mar, de amar o mar. Porque só se ama o que se conhece, o mar é esventrado, esmiuçado, dissecado, surpreendido!

Uma espécie de carta de amor, de carta de mar, que anda também ali pelo Chiado para que se possa cheirar de perto.

E, porque melhor do que por a ponta do pé na espuma do mar para matar as saudades é atravessá-lo todo-todo, volto já-já a seguir.
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MAR
Edições Patológico, 2012
texto Ricardo Henriques, ilustração André Letria
isbn 9789899671775
primeiro visto aqui
comprado aqui








(Imagens daqui. À hora em que finalmente aqui escrevo já não há luz para recolher as belas páginas; ficam só as belas ilustrações. Terão de espreitar o livro para verem o que é paginar.)

27.3.13

o que há

Comecemos pelo que não há: um postal nesta prateleira há mais de 3 meses.
 
Depois pelo que não houve: os livros que pusemos no sapatinho, as novidades de inverno, os que apareceram entretanto na prateleira-um-bocadinho-menos-de-baixo.
Passemos para o que houve: demasiadas maleitas, demasiada chuva, demasiado trabalho, demasiado stress e o 4º aniversário da prateleira sem comemoração.
O Luky Luke à 4ª feira tem sido um dos pontos altos da semana para todos.
O B anda em altos voos, e depois do Tom Swayer está a acabar As aventuras de Hucklebery Finn. Lê e relê a Bíblia para crianças e as Respostas às perguntas que nunca fizeste. Tem milhões de factos na cabeça, faz perguntas a que não sei responder e ensina-me mil coisas.

O T anda entusiasmadíssimo com as BDs e lê os Astérix pela ordem de números. Ainda em voz alta, mas cada vez mais baixo. Vou-me lembrando dos livros gostava que lhe lessem e passo-lhos de vez em quando para ele os ler sozinho. Fica feliz e orgulhoso.
O R imita os irmãos em tudo e, à noite, quando vamos apagar a luz, também pede: é só acabar a página!

E finalmente passemos ao que interessa:

 
Um postal para abrir a primavera no dia em que recebemos uma notícia de orgulho nacional! - e nós sem luz para tirar fotografias condignas...
Este que veio para o sapatinho do R, ficou na quinta todos estes meses, e agora regressamos a ele com olhos de novidade.

(A página preferida do R, por razões bem à vista!)
O que há é um livro maravilhoso super-hiper-contemporâneo e ao mesmo tempo brutalmente vintage: o melhor de dois mundos.
O papel, as páginas de cantos arredondados, a economia de cores, a explosão dos desenhos, os jogos dentro dos jogos, as leituras dentro das leituras.
É ao mesmo tempo reconfortante e perturbador saber que as mães guardam lenços ranhosos e que nunca sabem do telemóvel; que há iogurtes fora do prazo no frigorífico ao mesmo tempo que não há mais nada o que comer no frigorífico; que a gaveta da entrada e o bolso do impermeável são uma espécie de recycle bin onde podemos ir encontrar o que julgámos perdido para sempre e que o saco de praia da avó é suficientemente parecido com a mala da mãe.
 E é maravilhoso saber que, ao pé da minha antiga escola primária, existe uma casa onde belas portuguesas pessoas continuam a inventar objetos destes, com mil leituras e jogos, que entretêm e fazem pensar e são mesmo, mesmo bons, bonitos e novos.
Parabéns, Planeta Tangerina!
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O que há
Planeta Tangerina, 2012
texto Isabel Minhós Martins, ilustrações Madalena Matoso
isbn 9789898145499
oferecido!

30.11.12

grande coisa mesmo

Tanto faz. É-me indiferente. Tanto se me dá. É-me igual. Grande coisa.

Os miúdos cá de casa ficam desconcertados com este livro e olham para mim no fim para que lhes explique aquele pai. E eu explico-lhes aquele filho.

A Planeta Tangerina, no meio da criação própria, trouxe-nos discretamente uma edição alheia com este recado acutilante e bem humorado contra a indiferença.
[por favor não percam os saldos!]
O T fez 6 anos. Pois.

Já tem um livro pequeno para ler à noite sozinho antes da história, lê e tabuletas na rua e avisa, satisfeito, das suas proezas.

Faz os trabalhos de casa em total autonomia e gosta mais da Primária porque temos trabalhos de casa. Quanto tempo durará este estado de encantamento, não sei. Por agora tem dado grande satisfação ao pequeno (grande descanso aos adultos) e a vida corre-lhe sobre rodas.


Este foi um dos que lhe dei para ler e que depois levou para a escola para ler aos colegas. Todos queriam ler o Billy!

O T fez 6 anos. Pois.
E então, lembro-me dos adolescentes de olhos a rebolar e ombros a encolher (que todos fomos um dia)

e penso em como, bem mais breve do que imagino, vou estar a desejar ter um tigre mesmo aqui à mão.

Agora aproveito para gozar a falta dos dentes da frente, a cantoria, alegria e saltos permanentes e os abraços à volta do pescoço quando, do nada vem e diz, mãe - abraço!
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grande coisa
Planeta Tangerina, 2011
William Bee
isbn 978-989-8145-37-6
primeiro visto aqui
oferecido!

1.11.12

postal para um novo habitante deste mundo (e para o pai dele que está de perna ao ar)

E eis que, no meio da crise, no meio da confusão geral, nasce o Ricardo.
Primeiro cidadão exemplar, depois só como os outros, a olhar para o seu umbigo, a escolher o mais fácil, desligado do mundo, nem aí.
Vou ser tia, outra vez - pela oitava vez! - e a notícia chegou ao mesmo tempo que O rapaz que gostava de aves (e de muitas outras coisas). De modo que foi inevitável pensar um bocadinho mais no mundo, no nosso mundo, no mundo em que vai nascer esta nova criatura.
 
E o que pensei, logo a seguir a ficar preocupada, foi que, mesmo assim, no meio da crise, no meio da confusão geral, o mundo vale mesmo a pena. Se não olhem só para estas estradas!
Se não, vejam só o guarda-rios!


Alguns destes parecem até estar de lágrima no olho,

eles lá sabem, mas olhem só que beleza.


O Bernardo já nos habituou a páginas assim
e assim, de tal modo que poderemos passar por elas sem olhar verdadeiramente;
mas desenganem-se: uma página pode ser mil páginas, uma história poder ser mil histórias (sim, porque a Isabel também já nos malhabituou) e o mundo pode ser mil mundos. Há é que fazer pelo mundo, por um bom mundo.
É isso que vou tentando passar aos miúdos que por aqui andam à minha volta no mundo que construímos e é esse o recado que aqui deixo ao miúdo/miúda que ainda se esconde: quando aqui chegares e abrires os olhos, faz o mundo que quiseres, mas que seja um bom Mundo.
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O rapaz que gostava de aves (e de muitas outras coisas)
Planeta Tangerina, 2012
texto Isabel Minhós Martins, ilustrações Bernardo Carvalho
isbn 9789898145468
oferecido (adagirbo!)

23.10.12

dixit

Já há muito tempo que não jogamos Dixit, o jogo que nos acompanhou todas - a sério, todas - as noites de verão na quinta. E ninguém se fartava, nem grandes, nem pequenos.
Um tabuleiro com 30 casas e um coelho para cada um; seis cartas na mão e um cartão de voto.
O primeiro olha para as suas cartas e escolhe uma frase que não seja nem demasiado óbvia, nem totalmente obscura para que algumas pessoas, mas não todas, adivinhem qual é a carta para aquela legenda ou título ou pensamento.
Quando se decide a frase diz-se em voz alta e põe-se a carta virada para baixo; os outros jogadores olham para as suas cartas e decidem qual das suas cartas melhor recebe como legenda, título ou pensamento essa frase; mas de uma forma nem demasiado óbvia, nem totalmente obscura...
Depois, todos ao mesmo tempo, exceto o narrador - o que diz a frase - votam naquela que consideram ser a carta certa. Quem acerta ganha pontos - e anda casas, quem tem a sua carta escolhida também recebe pontos - e anda casas. Se não acertar na carta, se não votarem na sua, se toda a gente votar na sua enquanto narrador, não ganha pontos - e não anda casas.
As frases que saem são loucas porque as cartas também o são: ilustrações que permitem imensas leituras, pontos de vista, cheias de pormenores e reviravoltas.
Dentro de cada uma delas, mil e uma histórias.
Cada um joga com a idade que tem e com o feitio que tem, de modo que, passado um tempo, começa-se a perceber que aquela pessoa nunca diria aquela frase para aquela ilustração. Os mais pequenos passam rapidamente de frases totalmente óbvias para outras absurdamente obscuras e rebuscadas. E de repente os dias ficam inundados de Tenho uma  frase excelente para o Dixit, a propósito de tudo e de nada.
O Dixit 2 e 3, permitem que, viciados como nós, possam alargar o número de cartas e acabar com a batota que, por tanto jogar, nos permite logo que ouvimos a frase já sabermos a que carta é que ela corresponde. 
E é por isto que o T aprendeu bem cedo (ainda com quatro anos gostava de jogar acompanhado, agora faz gala de atirar, sozinho, frases bomba!) os conceitos de óbvio e de obscuro. As palavras óbvio e obviamente tornaram-se - são-o ainda hoje - duas das suas palavras preferidas: T, beterraba ou couves? - Beterraba Mãe, obviamente...
Dah.